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Sobre Assim Falou Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém

Por Luiz Fuganti

Nietzsche vem para nos trazer uma luz jamais vista, justamente naquilo que nos implica na maneira de investir o nosso desejo. Na maneira que desejamos existir, que investimos uma sensibilidade, um uso do corpo, um uso do movimento, um uso do pensamento, um uso da linguagem, um uso das paixões, das ações, das sensações, das memórias, das imagens, enfim. 

Nietzsche vem trazer uma luz fina, rara e precisa, justamente nisso que faz com que nós, ao desejarmos a liberdade, ao desejarmos uma saída, ao desejarmos uma felicidade, nos prendamos, de modo geralmente tolo, a correntes invisíveis, imperceptíveis, correntes principalmente semióticas e afetivas que fazem de nós seres rebaixados. Mas não seres decaídos ou incapazes de retomar as próprias forças. Forças essas que teriam uma plenitude, ou uma força de elevar a nossa existência à dignidade de estarmos vivos, à dignidade deste momento presente, à dignidade da existência.


Sermos dignos da existência e daquilo que nos acontece talvez seja todo o empreendimento da obra nietzschiana. E o seu Zaratustra brilha de modo único entre todas as suas obras. É um texto poético, uma poesia em prosa. Ele fala por imagens, ele fala por alegorias, ele fala por símbolos. Ele fala, inclusive, ao modo dos profetas — evidentemente como um falso profeta, porque obviamente Zaratustra é um falso profeta, porque ele é um autêntico pensador. Um pensador não é profeta, muito ao contrário, mas ele usa a linguagem dos profetas, até para se comunicar melhor com a humanidade. 


Mas Nietzsche é irreverente e mantém o seu pessimismo aceso. Inclusive como uma defesa, como uma economia de energia. Ele diz, no seu Ecce Homo, que sempre que ele deixou de ser pessimista, sua energia vital decaiu ao extremo. Ele se tornava um ser em estado péssimo. E sempre que seu pessimismo era investido, ao mesmo tempo ele desinvestia todo o campo de possibilidade ou de esperança dessa humanidade que, na verdade, não passa de investidora de marcas, investidora de um passado que já foi, na tentativa de melhorá-lo. 


Então ele, como um pessimista naquilo que tem que ser, desinvestindo a energia onde ela seria desperdiçada (é para isso que ser o pessimismo), libera toda a sua potência de pensar e cria uma obra independentemente do reconhecimento, porque ele não precisa que essa obra seja reconhecida. Esse livro, ele o escreve até, essencialmente, para ele mesmo.  Como todo bom pensador, antes de falar aos outros, ele fala para si. Ele fala para o seu modo de viver. É como se fosse uma escuta de si mesmo, uma grande escuta, uma escuta refinada. Uma escuta de si, uma escuta de um corpo profundo, uma escuta de um pensamento inconsciente, uma escuta de um desejo intensivo que está sob as camadas rasas das estratificações humanas. 


E essa escuta e essa fala para si fazem com que ele escreva o subtítulo da obra Assim falou Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. E esse enunciado de uma obra que se dirige a todos e também a ninguém — porque, no fundo, o que importa é que ela apresente uma visão, uma postura tal na existência que ponha a própria vida nas próprias mãos. A vida nas nossas mãos, o destino nas nossas mãos. 


Então você não está falando com o outro, muito menos para um Eu, porque as forças mais profundas em nós não têm nada a ver com o Eu. Não têm nada a ver com a consciência, não têm nada a ver com o sujeito. Nossas forças mais profundas, que nos fazem existir, implicam uma vontade de potência ontológica. Não uma vontade psicológica, não uma vontade de uma mente que precisa encontrar o poder. Mas muito ao contrário, é uma potência anterior à própria mente e ao corpo orgânico, que deseja, a partir dela mesma, se efetuar e se diferenciar como mente, como corpo, como campo afetivo e como potência de fazer conexões, fazer ligações, fazer composições. Com razões de potência ou de aumento da capacidade de sentir, de agir e de pensar. 


É uma obra que fala para os modos de vida, que fala para as maneiras de existir. É disso que se trata. E isso, então, faz dessa obra sempre uma obra extremamente urgente e necessária. 

1 Comment

  • Luciana Mena Barreto
    3 de março de 2021

    Tenho sido obsessivamente cúmplice de desertos e neles, cada vez que me alio a Zaratustra sou tomada por maravilhamentos

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